Gravura Brasileira

Michael Muller

Michael Muller

De 16/3/2019 a 18/4/2019

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Michael Muller

 

Individual com xilogravuras e monotipias do artista alemão Michael Muller

abertura - 16/03/2019

término - 18/04/2019

 

Michael A. Müller: 

Observando Horizontes

 

 

”Todos vivemos debaixo do mesmo céu, mas cada um de nós possui um horizonte distinto”.

Desta ou de forma semelhante pronunciou-se, certa vez, um chanceler alemao, não sem deixar transparecer certo tom ironico. Quantas vezes Michael Müller terá olhado para o alto, para ver este céu, mas para imaginar um outro lugar, além do seu horizonte? Inúmeras vezes.

 

Sua obra é prova clara disso.

 

Os horizontes com os quais Michael se deparou ao longo de sua carreira, dificilmente pode-

riam ter sido mais diferentes. Enquanto jovem paraquedista chegou bem perto do céu e teve

a oportunidade, assim, de olhar para além dos horizontes de seus companheiros em terra.

A força da gravidade, no entanto, sempre o trouxe de volta ao chão da realidade.

Uma realidade dificil para um artista pensante como ele, cidadão da RDA.

O que senão a busca de novos horizontes o faria celebrar a queda do muro de Berlim? Seu olhar, que, como poucos, é especialmente treinado para enxergar à distancia, está impregnado nas suas xilogravuras coloridas. O observador se depara com paisagens inteiras, contidas nos mínimos detalhes das estruturas das placas de madeira que utiliza para gravar.

 

A forma completa-se através da combinação de diversos clichês e não se esgota nos limites

da forma em si. A forma é preenchida por um conteúdo diferenciado e rico.

 

Aqui, o que a natureza impede, a arte viabiliza: linhas divisórias são transgredidas, possibili-tando que nos aproximemos de um imagináio que parece real. Diferente da linha do horizonte, sempre inalcançável, a obra de arte nos convida a contemplar o universo exuberante que se encontra além dos horizontes. Isso explica a diversidade na arte, pois ela se deve à diversidade dos horizontes de todos os artistas.

 

Alteram-se continuamente os horizontes que acompanham a obra de Michael Müller. No inicio está a descoberta da cor na xilogravura. Com as cores chegam os mitos, pois palmeiras, barcos ou seres enigmáticos não representam o mundo palpável, mas dão prova daquele universo além-horizonte que guia a mente e a intenção do artista. A experiência pessoal que Michael teve na floresta tropical amazônica, seu discernimento de mundos distintos, inclusive aqueles que fazem a intermediação entre civilização e natureza, se faz presente na sua obra. O saber indígena, sua particular ligação com a percepção de mundo, motivou Michael a se abrir aos horizontes dos povos da floresta. 

 

Centenas de denominações da cor verde, em uso na região da floresta amazonica, comprovam a riqueza em detalhes das coisas pequenas e passaram a dar ensejo aos trabalhos do artista a partir da década de 1990. Toda a abstração contida em grandes superficies é composta por figuras menores, cuja descoberta e avaliação ficam a cargo do observador. Enquanto a grandeza da floresta amazônica representa o uni-verso dos povos indigenas, a sobrevivência se dá a partir das coisas menores.

 

É nesses detalhes, da planta ou da arvore, que o universo amazônico também pode ser destruído ( hoje isso ocorre de forma especialmente cruel e sistemática).

 

Dos grandes formatos na obra de Michael Müller chegamos às composições caracterizadas por diferentes unidades figurativas, por assim dizer da mitologia oriunda de um ponto distante, inatingível, aos mitos do dia-a-dia e pertencentes a um mundo globalizado. 

 

Não há processo mais eficaz para se enxergar e reconhecer o próprio meio social mais imediato, do que um encontro pessoal com outras realidades culturais. Na “Troca de pele” (“Häutung”) este princípio se mostra muito visível. Adotar uma nova pele é uma estratégia da cobra da floresta, esta estratégia, no entanto, também funciona com o ser humano contemporâneo, cada vez mais à busca de renovação e de mudanças. As seis grandes xilogravuras em branco, vermelho e preto foram compostas e fixadas sobre uma única tela. Tres cores com significados diversos: as cores das primeiras impressões de livro, ou as cores da pintura corporal dos indígenas brasileiros, com base no urucum (vermelho) e jenipapo (preto).

 

As gravuras e os quadros de Michael Müller evidenciam a sua origem. Não escondem a direção dos horizontes que os norteiam. Têm seu espaco conceitual bem determinado,

mas ao mesmo tempo denotam uma atemporalidade consciente. Representam figuras miticas e do cotidiano, simultaneamente, ao nos darem noticias de áreas que se encon-

tram muito além dos nossos horizontes. Estes delimitam sempre o único e mesmo céu, o nosso céu. Por isso as obras de Michael têm a capacidade de nos tocar, indistintamente.

  

 

 

Tiago de Oliveira Pinto

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