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Aquilo que o Tempo Dobra

junho

2026

Aquilo que o Tempo Dobra

Mostra coletiva de Livros de Artista 


curadoria de Fabíola Notari e Paula Miranda

20 junho a 08 agosto de 2026


programação:

18 de julho, sábado, das 13 às 14 h:

visita guiada com o artista Bruno Oliveira

25 de julho, sábado, das 11h às 12h : 

Roda de conversa com curadoras e artistas presentes

(galeria aberta de 11 às 14h)

8 de agosto, sábado, das 11h às 15h:

Finissage da exposição

8 de agosto, sábado, das 13h às 14h:      

Conversa com o coletivo Gráfica Experimental



Artistas participantes :

Alex Gama, Amália Barrio, Ana Kalassa, André Berger, Anete Ring, Anico Herkovitz, Antonio Goper, Augusto Sampaio, Bruna Kim, Bruno Oliveira, Claudio Caropreso, Constança Lucas, Eduardo Ver, Fabiana Grassano, Fabiola Notari, Feres Khoury, Francisco Maringelli, Gilberto Tomé, Helena Freddi, Heliete Botelho, Irene Guerreiro, Jacqueline Aronis, Julian Campos, Kika Levy, Leonor Décourt, Leya Mira Brander, Lídice Salgot, Lilian Arbex, Lívia Escobar Gabbai, Luciana Bertarelli, Luise Weiss, Margarida Holler, Margot Delgado, Maria Villares, Maura de Andrade, Merien Rodrigues, Miriam Tolpolar, Néia F. Martins, Paula De Podestá, Paula Gabbai, Pedro Pessoa, Rafael Kenji, Regina Johas, Rose Sardin, Sebá Neto, Simone Höfling, Teresa Berlinck, Ulysses Bôscolo e Gráfica Experimental. 


São Paulo, 4 de junho de 2026 (7:50)

Querida Fabiola,

Ontem quando conversamos sobre minha preocupação sobre o

texto curatorial, que poderia ser caótico- com tantas nuances de

sentimentos, pensamentos e conhecimentos- pensei que não

fosse funcionar. E, quando vc apresentou a ideia dessas trocas de

cartas, eu adorei!!! Esse modo antigo e especial de comunicação

esse vai e vem funciona como as dobras sanfonadas- q revela uma

conversa, agora expostas para além do âmbito acadêmico.

Sabemos que compartilhar uma curadoria exige além de

conhecimento, muita troca, disciplina, humildade e coragem.

Sinto que agora chegamos ou melhor estamos no momento que

eu mais esperava, em nossa conversa sobre o livro de artista, a

gravura, a arte contemporânea, o amor e a vida. Bem, o que nos

encanta no livro de artista? Descobri em sala de aula que já fazia

livro de artista sem ter a consciência de que estava a fazer um livro

de artista- uma vez o Tomé disse em uma conversa na Feira Sub

que enquanto ele estava fazendo um livro, ele não estava ali

pensando em fazer um livro de artista. Eu super me identifiquei ali

na hora.

Fiquei agora pensando em nossas escolhas, sobre artistas que

gravam e q fazem livros, onde o livro funciona como um

organizador de uma coleção de gravuras, mas para além disso, e

percebo isso em seu trabalho, a ambiguidade de uma leitura

visual entre duas linguagens, a gravura e o livro de artista.

Como vc entende esse fazer? Eu penso que no seu processo, é

nítida a intenção do trabalho se tornar um livro de artista, mas a

gravação da montanha que se dobra também revela. Como isso

acontece?

E finalizo com mais uma pergunta para vastas respostas:

O que faz um livro de artista?

Beijos e bom dia daqui da Bela Vista

Paula



Peruíbe, 4 de junho de 2026 (19:19)

Querida Paula,

Escrevo de Peruíbe, em uma noite muito agradável de

outono, com 21°C. Da janela, o ar está calmo e parece

convidar justamente a esse tempo mais lento das cartas,

tão diferente da velocidade das mensagens instantâneas.

Adorei a imagem das cartas como uma sanfona. Acho

que há algo muito bonito nisso: a dobra não apenas

organiza o espaço, mas aproxima tempos distintos.

Talvez seja por isso que ela esteja tão presente tanto no

livro de artista quanto na gravura.

Tenho pensado que ‘Aquilo que o tempo dobra’ fala

justamente desse encontro entre tempos: o tempo lento

da construção da matriz, o tempo da impressão, o tempo

da leitura e também o tempo dos encontros,

desencontros e reencontros que acontecem ao longo de

uma trajetória artística.

Sobre sua observação dos meus trabalhos, acredito que a

gravura e o livro de artista não aparecem como

linguagens separadas. A matriz já nasce pensando em

sequência, ritmo, repetição, passagem de página e

construção de uma experiência. Talvez o livro seja menos

um lugar onde as gravuras habitam e mais um modo de

elas continuarem se transformando.

(...)

Sua pergunta ficou ecoando por aqui: o que faz um livro

de artista? Talvez a resposta esteja menos no objeto e

mais na experiência. Quando a forma deixa de ser

suporte e passa a construir sentido, quando a leitura

acontece também pelas mãos, pelo corpo e pelo tempo,

algo se transforma. Mas quero devolver outra pergunta

para você: quando uma gravura deixa de ser apenas uma

imagem impressa e passa a construir uma experiência de

tempo? Será que é aí que ela começa a se aproximar do

livro? Ou será que livro e gravura compartilham, desde o

início, uma mesma condição de dobra — do papel, da

imagem e do próprio tempo?

Beijos

Fabíola



São Paulo, 6 de junho de 2026 (10:22))

Fabiola,

Gosto da pronúncia do seu nome.

Antes da longa resposta que venho pensando, preciso dizer, para

quem nos lê, que estamos a escrever por e-mails e que as cartas

estão no campo da troca e dessa imagem poética da escrita em

papel. A praticidade do uso dos e-mails não quer dizer que nossas

reflexões sejam reduzidas, mas eu noto que essa praticidade de

comunicação diminui o tempo e a quantidade de palavras, será

que aumentam-se os silêncios?

Mas espere, o silêncio que me refiro aqui, está mais relacionado

com o tempo do fazer artístico, essa escuta e espera do ácido em

uma chapa de cobre, das camadas do óleo, o som da dobra de

um papel e da espera, esse tempo diante de um trabalho, muitas

vezes a observar num diálogo silencioso com a criação. Esse longo

processo que muitos artistas passaram uma vida repetindo,

repetindo, gravando e imprimindo, são muitos nomes a citar,

muitos mestres como assim a gravura se refere. Eu não sou

gravadora, mas não gosto de pensar que a gravura possa deixar

de ser uma imagem impressa, me cai como uma traição a todo

esse legado. Entendo que o livro de artista provoque um tempo,

mas a gravura evoca seu próprio tempo, talvez porque veio antes,

a carimbada da mão na pedra Ah! Bendita arte contemporânea!!!

hahaha

Nessa exposição trazemos muitos silêncios que podem ser

sentidos nas dobras, no manuseio do objeto ou apenas na

apreciação de uma imagem, dos caminhos encontrados por cada

artista para essa intersecção da gravura e do livro de artista. Por

isso, trago o silêncio como resposta possível para tantas criações

aqui sob nossos cuidados.

São tantos mundos vindos desses silêncios que podemos escutar

e sentir suas reverberações, sendo as experiências com o livro de

artista e a gravura, aqui reunidas, dobradas, coladas, gravadas,

juntadas numa grande coleção de sensações, por isso tenho agora

dificuldade em responder ainda nesse e-mail, sobre suas

questões, talvez precise viver a exposição já montada, porque

acredito que aconteçam outras reverberações reflexivas.

Estou gostando muito disso, da construção curatorial desse dueto

como Flower Duet que ouço obsessivamente em diversas versões

em uma playlist.

ahhh! precisamos falar da obsessão... talvez ela seja amiga do

silêncio, mas isso é conversa para um outro e-mail, talvez possa

responder esse e-mail falando sobre a obsessão já que finalizo

aqui sem uma pergunta como devolutiva, por ora... deixo o

silêncio reverberar. Um grande abraço, vou agora me aquecer no

sol vendo a cidade que se prepara amanhã para a Parada Gay.

beijos

Paula


Peruíbe, 7 de junho de 2026 (11:55)

Querida Paula,

Escrevo em um domingo de céu aberto, quase meio-dia.

O sol está em seu ápice, iluminando com intensidade o

Pico dos Itatins que observo da janela. Há uma brisa

fresca correndo por aqui, dessas que só o outono

consegue oferecer, equilibrando calor e leveza.

Sua carta me acompanhou durante toda a manhã e fico

pensando que talvez tenhamos encontrado uma palavra

importante para esta exposição: silêncio. Gostei muito

quando você escreveu sobre o silêncio da espera. O

silêncio do ácido agindo sobre a chapa, da tinta secando,

da dobra que antecede a próxima dobra. Existe um

silêncio muito particular no fazer artístico, que não é

ausência, mas presença concentrada. Talvez por isso eu

não veja contradição entre a gravura permanecer

gravura e, ao mesmo tempo, aproximar-se do livro de

artista. Concordo com você: a gravura possui seu próprio

tempo, sua própria história e seu próprio corpo. Ela não

precisa deixar de ser imagem impressa para dialogar

com outras linguagens.

Sua observação sobre a marca da mão na pedra me

acompanhou desde que li sua carta. Talvez toda gravura

carregue algo desse gesto inaugural: a vontade de deixar

um vestígio, de repetir uma presença mesmo depois da

ausência. E talvez o livro de artista compartilhe dessa

mesma vontade, mas organizando os vestígios em

percursos, pausas e relações.

Mas foi outra palavra sua que ficou reverberando por

aqui: obsessão.

(...)

Talvez a obsessão seja apenas o nome que damos para

aquilo que insiste em permanecer conosco.

E então me pergunto se não existe uma relação profunda

entre obsessão e silêncio. Afinal, para voltar tantas vezes

à mesma questão, é preciso escutá-la. É preciso

permanecer ao seu lado. É preciso suportar o tempo.

(...)

Talvez "Aquilo que o tempo dobra" também seja sobre

isso: sobre as imagens, os gestos e as perguntas que se

recusam a nos deixar.

Um beijo,

Fabiola



São Paulo, 8 de junho de 2026 (08:02)

Querida Fabiola,

Faz tempo que estou acordada pois no centro de São Paulo -4h30

da manhã -é o melhor horário para o silêncio, por isso te escrevo,

trazendo ainda dos sonhos e passeios noturnos o frescor de

palavras que reverberam deste acordar. Da minha janela vejo dois

fragmentos de prédios criando uma única forma e lembrei das

gravuras da Selma Daffré da exposição "memória, cidade e arte"

em 2014 que tive o prazer de montar quando a galeria Gravura

Brasileira ficava em Perdizes. Essa é uma boa lembrança, e agora,

sinto-me feliz realizando essa exposição coletiva de volta à

Gravura Brasileira. Isso tudo é acalento.

Das palavras que reverberam, em nossas conversas, vindas de

sonhos ou não, a obsessão acompanhada do silêncio ou nem

sempre nessa ordem, me faz pensar em outra palavra, a

resistência. Pois a obsessão vem dessa busca constante do artista,

como se quiséssemos cavar um buraco profundo para descobrir

onde vai dar e, suportar o tempo. Nossa! achei tão forte essa

expressão, suportar o tempo!

Voltando a obsessão, vc coloca que ela é uma espécie de irmã da

repetição, compreendo e concordo, mas fico ainda na reflexão

para onde esse ato constante de fazer uma determinada coisa nos

conduz, e acredito que seja uma forma de resistência. No caso da

gravura, em tempos de IA- ela, a gravura e tudo que a acompanha

ganha uma potência muito maior, não é mesmo?

O suportar o tempo, nos dias de hoje, se torna difícil diante das

exigências das técnicas manuais, do respeito ao processo

somados à urgência dos boletos e da vida contemporânea.

Acredito que todo contemporâneo teve suas questões, como o

caso de artistas que viveram em plena guerra! Nesse caso a

gravura e o livro de artista aqui reunidos demonstram que sempre

haverá a resistência como forma de amor àquilo que nos mantém

conectados com propósitos e na busca da nossa própria verdade.

Prefiro agora imaginar a paisagem da praia, tem uma montanha

em Caraguá, que chamo montanha menininha- pois parece uma

cabeça de menina correndo ao vento, os cabelos são a mata que

ainda permanece na parte de cima e em dos um dos lados da

montanha. Obrigada por manter essa conversa que me

transportou no tempo.

Um forte abraço para te aquecer nesta semana fria que se inicia.

Paula


Peruíbe, 8 de junho de 2026 (09:09)

Querida Paula,

Leio sua carta já em deslocamento, atravessando a Serra

do Mar em direção a São Paulo. Talvez seja justamente

esse movimento que me faça pensar menos nas

paisagens e mais nos percursos.

Sua lembrança da Gravura Brasileira, da exposição da

Selma Daffré e dos reencontros que a arte proporciona

me fez perceber algo sobre "Aquilo que o tempo dobra".

Talvez esta exposição seja, antes de tudo, um lugar de

convergências.

Penso na diversidade de artistas reunidos aqui. Alguns

vieram da gravura para o livro de artista, outros fizeram

o caminho inverso. Alguns transitam pela universidade,

outros construíram suas pesquisas fora dela. Há artistas

que trabalham há décadas com essas questões e outros

que chegaram mais recentemente.

Talvez seja a compreensão de que tanto a gravura quanto

o livro de artista são linguagens que pensam. Não apenas

suportes ou técnicas, mas formas de produzir

conhecimento. Ao longo dos últimos anos, tenho

percebido que muitas das discussões que acontecem em

grupos de estudo, pesquisas acadêmicas, ateliês e

orientações acabam permanecendo restritas a círculos

específicos. Esta exposição me parece interessante

justamente porque cria uma passagem entre esses

territórios.

(...)

Por isso, gosto de pensar que esta exposição não

apresenta respostas. Ela compartilha investigações.

Aproxima processos. Torna visíveis perguntas que

continuam em aberto. E talvez seja justamente essa

diversidade de percursos, experiências e modos de fazer

que permita que a exposição aconteça como um

encontro — não apenas entre gravura e livro de artista,

mas entre pessoas, pesquisas e formas distintas de

construir conhecimento através da arte. E deixo uma

pergunta para você: diante de artistas tão diferentes

entre si, o que faz com que reconheçamos uma exposição

como um conjunto e não apenas como uma reunião de

obras? O que, afinal, costura essa diversidade sem

apagar suas diferenças?

Abraços,

Fabiola



São Paulo, 10 de junho de 2026 (06:54)

Bom dia Fabiola querida,

Outras demandas ocuparam mais meu tempo e estou presente

somente agora para te escrever. É cedo aqui, a rotina do entorno

está começando como o abrir da porta do bar do Chiquinho, a

varrida da calçada, os zeladores se encontrando, e outros sons...

Me parece que aos poucos vamos guardando essas sensações, e

imagino que isso aconteça com você em relação às paisagens de

sua viagem da praia para São Paulo, como se já tivesse guardada

essa informação e o percurso, esse tempo da distância entre as

cidades ocupe agora essas sensações, viajar tem esse poder de

nos transportar no tempo.

Concordo quando a exposição possa ser um lugar de

convergências, logo dobras e que revelam tantos percursos

reunidos, porém, insisto mais um pouco sobre o tempo porque,

não sei se inverteu as palavras propositalmente quando se referiu

ao nome da exposição, 'Aquilo que dobra o tempo', e fiquei

balançada aqui e me fez pensar a respeito. Sincronicamente, em

um post no instagram do professor Sidnei e bàbálórìṣà, ele diz

que o tempo é presença e não uma métrica, e que nas tradições

afro-diaspóricas fala-se Ìrókò que é algo que se vive. O professor

diz que Ìrókò é a própria espessura do tempo, um princípio que

nos lembra que cada gesto tem peso, cada escolha tem raiz, cada

ação transforma o campo ao redor. Ai que bonito tudo isso!

Penso que essa seja a resposta para suas perguntas. Somos seres

aqui reunidos em uma grande celebração ao tempo, àquele

dedicado para nossas próprias orações, em nossos diálogos

silenciosos com nossos demônios, deusas e deuses; transformados

e materializados em objetos e imagens que nos trazem diferentes

sentimentos, cada um à sua maneira e por sua vez sentidos de

diferentes formas por diferentes seres. Essa diversidade se

expande ao trazer o tempo de cada obra como o poder da

viagem, que nos transporta para universos particulares, únicos,

sublimes como se essas obras pudessem nos salvar neste fim de

tempos, a única coisa que consigo pensar que pudesse apagar

essas diferenças.

Aqui, em 'Aquilo que o tempo do dobra' costuramos uma grande

colcha repleta de sonhos e memória, somos pássaros! Cantamos

ao nosso modo ao nascer do dia nesta floresta de pedra para que

outros seres sintam a presença do que conseguimos trazer do

divino.

Por ora, diante de uma agenda intensa, me despeço amiga e

talvez, você queira responder com um desfecho de nossas trocas,

pelo menos por enquanto, porque gostei muito disso.

Um abraço de bem-te-vi.

Paula


Peruíbe, 10 de junho de 2026 (10:54)

Querida Paula,

Leio sua carta com a sensação de que chegamos a um

bom lugar. Gostei muito da ideia de Ìrókò e dessa

compreensão do tempo como presença. Enquanto lia

suas palavras, lembrei-me de Eckhart Tolle e de sua

reflexão sobre o agora como o único tempo que

realmente habitamos.

Talvez seja justamente isso que buscamos reunir nesta

exposição: não apenas obras, mas presenças.

Ao longo dessas trocas, percebo que fomos nos

aproximando menos de definições e mais de

experiências. Talvez porque a gravura e o livro de artista

compartilhem essa capacidade de tornar visível algo que

não cabe inteiramente nas palavras.

Também gosto de pensar que "Aquilo que o tempo dobra"

é um encontro de trajetórias.

Lembrei-me também de Gaston Bachelard. Ele nos

mostra que os espaços que habitamos também nos

habitam. Talvez por isso nossas conversas tenham sido

atravessadas por montanhas, cidades, estradas e janelas.

Imagens que nos ajudam a compreender o mundo e a nós

mesmas.

Agradeço muito por esta conversa. Ela foi, por si só, uma

experiência de encontro, uma dobra entre pensamento,

amizade, pesquisa e criação.

Daqui, abraços de quero-queros...

Com carinho,

Fabiola


São Paulo, 11 de junho de 2026 (05:51)

Fabiola,

A mesma hora de ontem, porém, abafado com o som da chuva e

menos ansiosa.

Lendo aqui nossa última troca de pensamentos, preciso trocar

algumas palavras que escrevi, como no caso de 'sincronicamente'

que substitui-se por, 'algoritmicamente' porque se digo, 'post no

instagram', não há sincronicidade, essa é a real. E a segunda

palavra, já no último parágrafo, 'para que outros seres sintam a

presença do que conseguimos trazer do divino' alteraria por '...

tentamos trazer... porque é a nossa busca e também porque me

refiro aqui ao modo como sinto e entendo a arte, como um lugar

da prática divina para encantar, embelezar, chocar, provocar as

pessoas, não generalizo porque sabemos que fora do exercício

dessas trocas de mensagens, a realidade também é outra se

abrirmos para falar sobre mercado de arte, por exemplo. E por

fim, talvez pudesse citar o fascimo como a única forma de apagar

qualquer coisa que expresse beleza e poesia neste mundo.

Talvez tenha acordado mais brava hoje diante das atrocidades do

mundo, mas carrego comigo também, a leveza das amizades

porque ontem foi um dia gostoso entre pessoas especiais em

minha vida, além da arte e da poesia. 'Aquilo que o tempo dobra'

é antes de tudo um encontro de afetos entre pessoas que em

comum encontram na arte um lugar para exercerem seu próprio

tempo, entre silêncios, caos, acalentos e poesia.

Poderíamos trazer muitos autores e citações ao modo acadêmico

onde nos conhecemos, porém, eu sinto muito se não entrei nesse

lugar porque preferi manter nossas conversas na vida comum, da

nossa rotina contemporânea para que o leitor perceba a relação

do tempo, presente todo esse momento, e quem sabe, o leitor

futuro perceba as nuances desses pensamentos que mostram

como o tempo repercute de outras formas em nossa vida

contemporânea, dos posts, das playlists e principalmente desses

e-mails que escolhemos como forma mais eficaz de escrever e nos

comunicar. Foi tardia essa ideia, mas amei. Eu te agradeço pela

escuta e trazer suas perguntas para exercer uma reflexão sobre o

assunto dessa exposição.

Fabiola, querida, eu quero te agradecer por abraçar esse convite

com sua experiência de vida, seu profissionalismo, sua

organização impecável e sua poesia.

Fica aqui meu sincero agradecimento. Nos encontramos mais

tarde na galeria para repassar a expografia.

Um grande abraço, com o mesmo carinho,

Paula



Peruíbe, 13 de junho de 2026 (14:14)

Querida Paula,

Talvez essa seja uma boa carta para encerrarmos, ao

menos por enquanto. Gostei muito de acompanhar as

correções que você fez em seu próprio texto. Elas

revelam algo que também atravessa a exposição: nada

nasce pronto. Pensamos, fazemos, revisamos, voltamos

atrás, mudamos uma palavra, reposicionamos uma obra,

olhamos novamente. Faz parte do processo.

Acho bonita sua decisão de manter nossas trocas

próximas da vida comum. Afinal, é nela que a arte

acontece. Também agradeço pela confiança, pela

parceria e pela generosidade deste percurso. Foi muito

bom construir esta exposição ao seu lado e perceber, ao

longo das semanas, como ela foi encontrando sua

própria forma.

Agora entramos em outro momento. Nos encontramos

na quinta-feira e foi ótimo vislumbrar a exposição,

imaginando o espaço ocupado, habitado pelos livros.

Chegam também os preparativos finais, a expectativa, a

ansiedade de ver tudo pronto e o desejo de que tudo dê

certo.

Mas, como fomos lembrando tantas vezes ao longo

dessas cartas, o tempo das coisas é o tempo das coisas.

Em breve a exposição nasce.

Com carinho e gratidão,

Fabiola


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