Renina, 100
Março
2026
Renina, 100
07 março - 15 abril 2026
Homenagem aos 100 anos da artista Renina Katz
Apoio: Patrícia Motta e Glatt Atelier de Arte
Curadoria: Ana Carla Soler e Eduardo Besen
Renina Katz
(Rio de Janeiro, 30 de dezembro de 1925 - 21 de janeiro de 2025)
Renina iniciou sua carreira nos anos 1940, dedicando-se primeiramente à pintura de retratos e paisagens do Rio de Janeiro, utilizando elementos do expressionismo. Em 1946, começou seus trabalhos com xilogravura com o ilustrador e gravador austríaco Axl Leskoschek.
Renina estudou pintura entre 1947 e 1950 na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, com licenciatura em desenho pela Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil. Incentivada por Poty, ingressou no curso de gravura em metal oferecido por Carlos Oswald no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. Durante a década de 1950, Renina continuou a trabalhar com gravura em metal, mas foi na xilogravura que realizou a maior parte de sua produção artística, retomando a gravura em metal cerca de trinta anos depois, na década de 1980.
Após mudar-se para São Paulo em 1951, ministrou cursos de gravura e desenho no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - MASP de 1952 a 1955 e na Fundação Armando Álvares Penteado - FAAP de 1953 a 1963.
Entre 1948 e 1956, dedicou-se principalmente à técnica da xilogravura, trabalhando numa série de gravuras em madeira e linóleo. Preocupada com temas ligados ao realismo social, seu trabalho na época revela o universo de personagens marginalizados como trabalhadores urbanos, camponeses e retirantes.
Durante os anos 1960, abandona os temas de denúncia social adquirindo um estilo mais não-figurativo. Dedicou-se a pintura e ao desenho e fez estudos de cor usando serigrafia. Ela afirma que "a cor surgiu como uma necessidade na evolução do trabalho, e a multiplicação das matrizes trouxe a possibilidade de explorar os vários valores tonais".
Tornou-se docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo em 1965, instituição onde completou seu mestrado e doutorado e à qual esteve vinculada durante 28 anos. Sua dissertação de mestrado, intitulada "Matrizes Modificadoras do Campo Plástico", de 1979, foi o primeiro trabalho acadêmico apresentado como uma série de serigrafias realizado na Universidade de São Paulo.Em 1982, sua tese de doutorado, "Lugares", composto de 13 litografias foi a primeira tese não-verbal apresentada na FAU.
A partir da década de 1970, Renina se dedica a litografia. Nos anos 1980, o trabalho de Renina começa a apresentar superfícies translúcidas. Para conseguir esse efeito, ela grava muitas matrizes e aplica várias cores, realizando diversas impressões para obter uma única gravura. Depois da década de 2000, problemas de saúde obrigaram a artista a abandonar a gravura e a dedicar-se cada vez mais a técnica da aquarela.
Exposições selecionadas:
54º, 55º, 57º Salão Nacional de Belas Artes, 1948, 1949, 1951
1º , 2º, 4º Salão Bahiano de Belas Artes, 1949, 1950, 1954
2º, 3º, 4º, 6º, 8º, 9º, 10º Salão Paulista de Arte Moderna, 1952, 1954, 1955, 1957, 1959, 1960, 1961
2º, 5º, 6º, 7º, 8º Salão Nacional de Arte Moderna, 1953, 1956, 1957, 1958, 1959
3ª, 5ª, 6ª, 7ª, 18º, 20ª Bienal de São Paulo, 1955, 1959, 1961, 1963, 1985, 1989
28º, 42ª Bienal de Veneza, 1956, 1986
1ª Bienal Interamericana de Pintura y Grabado, 1958
Prêmio Leirner de Arte Contemporânea, 1959
6º, 9º, 12º, 15º, 23º, 24º, 25º Panorama de Arte Atual Brasileira, MAM-SP, 1974, 1977, 1980, 1984, 1993, 1995, 1997
Contribuição da Mulher às Artes Plásticas no País, MAM/SP, São Paulo, 1960
Arte Gráfica de Hoje, Madri, 1974
Contemporary Brazilian Prints, Estados Unidos, 1974
A Moderna Gravura Brasileira, Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 1974
Arte Gráfica Brasileira, França, Austria, Portugal, 1975
The Original and its Reproduction: a Melhoramentos Project, Washington, 1977
1ª, 9ª, 10ª Mostra Anual de Gravura Cidade de Curitiba, 1978, 1990, 1992
Tradição e Ruptura: síntese de arte e cultura brasileiras, Bienal de São Paulo, 1984
2ª Bienal de Havana, Havana, Cuba, 1986
Coletiva Fondazione Scientifica Querini Stampalia, Veneza, 1993
Matrizes e Gravuras Brasileiras: Coleção Guita e José Mindlin, Lisboa, 1993
1ª Bienal de Gravura de São José dos Campos, 1994
Bienal Brasil Século XX, Fundação Bienal ,São Paulo, 1994
Poética da Resistência: aspectos da gravura brasileira, Galeria de Arte do Sesi, São Paulo, 1994
Panorama da Gravura Brasileira, Museus Castro Maya. Museu da Chácara do Céu, Rio de Janeiro, 1996
Brasileiro que nem Eu, que nem Quem?, Brasília, 1998
Pensar Gráfico: A Gravura da Linguagem, Paço Imperial, Rio de Janeiro, 1998
Mostra Rio Gravura. Coleção Guita e José Mindlin, Rio de Janeiro, 1999
Investigações: A Gravura Brasileira, Itaú Cultural, São Paulo, 2000
12ª Bienal Iberoamericana de Arte, México, 2000
Maria Bonomi, Renina Katz: vigência, Galeria Múltipla de Arte, São Paulo, 2000
Gravuras: Coleção Paulo Dalacorte, Passo Fundo e Porto Alegre, 2002
MAC USP 40 Anos: interfaces contemporâneas, MAC/USP, São Paulo, 2003
Arte e Sociedade: uma relação polêmica, Itau Cultural, 2003
Entre Aberto, Galeria Gravura Brasileira, São Paulo, 2003
A Gravura Vai Bem, Obrigado: a gravura histórica e contemporânea brasileira, Espaço Virgílio, São Paulo, 2003
Brasilianische Landschaften, Embaixada do Brasil em Berlim, 2004
Itaú Contemporâneo: arte no Brasil 1981-2006, 2007
Modos de Ver o Brasil: Itaú Cultural 30 Anos, 2017
Gravura e crítica social: 1925-1956
Chão da praça: obras do acervo da Pinacoteca, São Paulo, 2023
A exposição Renina,100 é uma homenagem da galeria Gravura Brasileira e de Patrícia Motta, da Glatt Atelier de Arte, ao centenário da artista Renina Katz.
Renina foi minha professora de “Programação Visual” no primeiro ano da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo). Professora rigorosa, Renina não admitia desleixo: o trabalho tinha que ter um conceito, coerência e boa realização.
Quando Patrícia me comunicou que desejaria fazer esta homenagem a Renina, logo me entusiasmei. Com a curadora Ana Carla Soler, visitamos o enorme acervo da Patrícia para ver e selecionar as gravuras. Renina sempre me dizia que eu era corajoso por abrir e manter uma galeria dedicada exclusivamente à gravura. Acredito que ela se identificava com este desejo de afirmar a importância da gravura na arte brasileira e, sempre que nos encontrávamos, me incentivava a continuar.
Renina produziu centenas de obras nas mais variadas técnicas: xilogravura, serigrafia, metal, litografia, desenho, aquarela e pintura. Nesta exposição iremos mostrar uma pequena parcela desta produção com destaque para uma bela seleção de serigrafias pouco conhecidas. O conjunto revela a persistência de seu interesse pelo estudo da paisagem, pela geometria e pelo uso intenso da cor.
Neste ano em que a Gravura Brasileira completa 28 anos é para mim uma honra abrir a nossa programação com esta exposição.
Eduardo Besen
Março 2026
Renina, 100
Renina Katz (Rio de Janeiro, RJ, 1925–2025) construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com a gravura e pelo rigor técnico. A linguagem, fundante de sua investigação, tornou-se campo para pesquisas sobre composição e cor, aspectos indissociáveis de sua maneira precisa de conduzir as linhas no desenho. Em 30 de dezembro de 2025, completaria 100 anos. A exposição surge como homenagem e também como convite a percorrer um pequeno recorte de seis décadas de trabalho. Nessa seleção, delineia-se o percurso de uma pesquisa que estrutura e solidifica modos de articular abstração e geometria em imagens carregadas de espacialidade e luz.
A cor, eixo central desta mostra e do pensamento que atravessa sua obra, apresenta-se como exercício contínuo, mesmo quando circunscrita ao preto e ao branco. Suas referências - Vincent van Gogh, Josef Albers e Paul Cézanne - apontam para uma investigação da luminosidade. Nesse contexto, a gravura se afirma como meio expressivo capaz de acolher sua busca por gradações tonais, transparências e sobreposições, articuladas a um método elegante e ao delicado equilíbrio entre luz e sombra. Tais procedimentos orientam os elementos pictóricos que norteiam as impressões, mas também aparecem nas aquarelas e nos desenhos concebidos com maior intensidade a partir dos anos 1990.
A exposição não se organiza segundo uma cronologia linear. Em vez disso, aproxima-se da noção de “tempo espiralar” (MARTINS, 2021), propondo um movimento de idas e vindas que ecoa o próprio gesto de construir e desconstruir a paisagem presente em suas obras. Nos trabalhos entre o final da década de 1960 e o início da de 1970 emergem serigrafias de grande complexidade, desenvolvidas a partir de numerosas camadas sobrepostas. Trata-se de um conjunto ainda pouco difundido, mesmo entre aqueles que acompanham mais de perto seu corpo de obra. Essa investigação rigorosa, dedicada às estruturas formais, conduz à pesquisa de mestrado intitulada Matrizes Modificadoras do Campo Plástico, defendida em 1976 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), momento em que a geometria de Dionísio del Santo exerce influência decisiva (KATZ, 1997).
Ao adentrar em 1980, observa-se um deslocamento em direção a uma maior leveza compositiva nas litografias. A coesão entre os elementos permanece: círculos, fendas e linhas em grade reiteram questões que elabora desde o início de sua produção. Essas características se consolidam na tese de doutorado Lugares (1983), na qual o espaço deixa de ser apenas tema para tornar-se também estrutura da imagem.
Na obra de Renina Katz, a paisagem constitui um campo contínuo de investigação que atravessa toda a sua trajetória, deslocando-se gradualmente da observação do mundo visível para uma elaboração cada vez mais estrutural. Desde as primeiras gravuras, em que ainda se reconhecem referências ao ambiente natural, até as composições mais sintéticas dos períodos posteriores, a paisagem deixa de ser apenas representação para tornar-se problema plástico: um modo de organizar linhas, planos, ritmos e tensões. Nesse percurso, montanhas, horizontes e cidades se transformam em estruturas geométricas e campos de cor. Mais que um cenário, a paisagem se torna um território onde se articulam percepção, memória e pensamento visual. Katz retorna a esse motivo de maneira insistente, reinventando-o a cada fase e convertendo-o em eixo fundamental de sua pesquisa sobre forma, cor e composição.
Esta exposição, apresentada na Galeria Gravura Brasileira, articula peças da coleção da Glatt Atelier de Arte, que reúne um dos acervos mais consistentes de obras de Renina Katz. Foi no antigo ateliê Ymagos que a gravurista realizou grande parte de suas impressões, estabelecendo uma relação duradoura com esse local de produção e edição gráfica. Fundado em 1973 por Élsio Motta e hoje gerido por Patrícia Motta, o Ymagos consolidou-se como um importante polo para a produção gráfica no Brasil, reunindo artistas interessados nas possibilidades da linguagem.
A história de Renina Katz também se entrelaça com a da Galeria Gravura Brasileira. Em seu segundo ano de atuação, a galeria recebeu a exposição de lançamento do álbum Fragmentos (2000), produzido por Renina em colaboração com Feres Khoury, que havia sido seu aluno. Em 2004, em parceria com a Embaixada do Brasil em Berlim, apresentou uma coletânea de gravuras dedicadas à paisagem, que contou com quatro obras da artista. Em 2020, trabalhos de Renina integraram um conjunto do acervo exibidos na Gravura Brasileira já em sua atual sede. Agora, temos a honra de apresentar Renina, 100, primeira mostra realizada após seu falecimento e também sua primeira exposição individual na galeria.
Ana Carla Soler e Eduardo Besen
























